Crônica

Como desapaixonar-se

Vai precisar de:

 

Uma xícara de amor próprio;

Uma dose de segurança;

Duas gotas de lágrimas derramadas;

Três colheres de resiliência;

Um baú.

 

Modo de fazer:

 

Primeiramente, numa panela misture o amor próprio com a segurança. O fogo deve estar alto, pois os sentimentos estarão bem aflorados. Cuidado para não se queimar. Logo após, derrame as lágrimas na mistura, que pode ficar um pouco amarga no começo, mas depois o gosto melhora. Depois da massa pronta, coloque-a dentro de um baú, este forrado com memórias boas da paixão a qual pretende deixar. Por fim, polvilhe as três colheres de resiliência sobre a mistura.

O prato pode ser servido frio, mas quente por dentro.

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Crônica

Becoming Adult

A partir de que momento passou a desacreditar em contos de fadas? A ver que a vida não era essa beleza toda que as pessoas costumam prometer? A perceber que a cada dia parece mais solitário e abandonado? Bem, isso parece a tão aclamada adultez.

Quando somos crianças temos essa vontade incontrolável de querer crescer, de querermos ser somente nós mesmos. Parece que que no final das contas não é bem assim, não é? Ainda nos submetemos a tanta coisa, mesmo sabendo o que fazemos, e as consequências dos nossos atos – tanto a nós mesmos quanto aos outros. Será que, no fim das contas, só crescemos em tamanho? Será que no fundo de nossas cabeças ainda somos aquelas crianças perdidas em seu próprio mundo?

O que você faria se pudesse encontrar sua criança interior? Será que ela é cheia de arrependimento, ou ela é orgulhosa de quem é hoje? Talvez não seja uma pessoa a quem quer encontrar, não é?

Estamos tão imersos em nosso presente e no imediatismo que esquecemos de refletir, pensar e planejar. Somos escravos do agora. Isso nos faz fugir de quem realmente somos, de que precisamos e de nossas próprias vivências. Capitalismo? Talvez. Mas além disso, egoísmo.

O mundo dos adultos nos exige valorindependênciaindiferença. Quando somos crianças, aprendemos que devemos dividir, quando somos adultos aprendemos a competir. Que dividir te faz um trouxa, te faz fraco. Você precisa só pensar em si mesmo e esquecer do mundo, afinal é isso que ele vai fazer com você.

Amar e ter empatia são atos de resistência. 

Se tornar adulto é o sonho de alguns e o medo de outros, mas é inevitável. Se somos inocentes quando crianças e rebeldes quando adolescentes, quando adultos nos tornamos estáveis. Vivemos um dia por vez, cegos pelo sucesso e pelo comodismo. Quando iremos aprender que nada na vida pode ser eterno?

Tudo antes era melhor, a vida antes era mais feliz, tínhamos mais sorrisos do que lágrimas. Depressão? Ansiedade? Nem sabíamos da existência disso. Éramos contentes e sequer tínhamos consciência disso. E mesmo assim sempre queríamos mais do que a vida nos dava, nunca era suficiente.

Um ser adulto é um ser nostálgico. 

Por fim, é só mais uma fase. Ainda temos muito o que viver, somos jovens adultos meio perdidos. Almas tentando encontrar seus caminhos por si mesmas, talvez pela primeira vez, se preparando para o mundo à frente.

 

Preparem-se para as desilusões.

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Conto

A culpa reside em seus olhos (Parte 1)

Seu nome era Esmeralda. Sua mãe lhe dera este nome pela cor esverdeada de seus olhos, que, de tão profundos, pareciam ameaçadores. Tinha pele morena, era tão pequena e ao mesmo tempo tão enérgica. Sua mãe a amaria com todo o amor do mundo, era sua pequena joia.

Desde sempre, Esmeralda e sua mãe viviam juntas, porém completamente isoladas do mundo, em uma cidade abandonada no meio do deserto. Ela nunca entendera o porquê disso, mas era feliz, mesmo tendo somente sua mãe como companhia. Sua mãe a ajudara a andar, a falar, a ler e a escrever, era sua base, sua vida; ela não precisava de mais ninguém.

Esmeralda as vezes perguntava sobre a cor dos próprios olhos “Por que tenho olhos desta cor, sendo que seus olhos são tão castanhos?”, e a mãe sempre desconversava, da mesma forma de quando perguntava sobre o isolamento delas. Acreditava que deveria ter acontecido algo muito ruim, pois ela nunca falava sobre seu passado; e assim, nunca tinha respostas para seus questionamentos.

Como estavam em um lugar longe de tudo, sua mãe precisava viajar de tempos em tempos para poder trazer água e comida. Esmeralda sempre teve curiosidade em ir, queria ver outras pessoas, outras culturas, queria conhecer o mundo, porém sua mãe nunca permitia. Sempre se decepcionava quando isso acontecia, ela sentia como se não merecesse o mundo, sendo que nunca tinha feito nada de errado a ele.

Um dia, Esmeralda sentia que algo ruim estava para acontecer, mas ela não levou isso em consideração. Sua mãe já iria chegar da viagem, provavelmente ela só estava angustiada por ficar muito tempo só, isso ia passar. Então, enquanto a esperava, ficou em cima de uma casa abandonada, para poder vê-la de longe. Depois de um tempo, ela conseguiu ver a mãe chegando, mas ela estava… correndo. “Por que ela está correndo?”, pensou, incrédula.

Ela logo viu que sua mãe estava fugindo de outras pessoas que estavam atrás dela, pareciam guardas. Imediatamente Esmeralda desceu e correu ao encontro de sua mãe, mas ela estava gritando para que ela fugisse; como ela poderia fugir sendo que precisava de sua ajuda? Ao conseguir alcançar sua mãe, elas continuaram correndo para longe, mas sem rumo.

– Você precisa ir. Não se preocupe comigo, mas você precisa se salvar

– Mas mãe, não posso te deixar…

– Pode e vai, eu quero que corra o máximo que conseguir, para o mais longe que puder. – As duas pararam por alguns instantes, para que Esmeralda e sua mãe encontrassem os seus olhares – Me prometa que nunca deixará que ninguém veja a cor dos seus olhos, me prometa que viverá e que terá cuidado.

– Mas por que?…

– Só me prometa isso Esmeralda.

– Sim, eu prometo. – Os guardas estavam se aproximando – Temos que ir mãe, rápido.

– Vá na frente, eu te alcanço… Filha, saiba que eu amo você e sempre te amarei, nunca se esqueça da sua promessa.

– Mas mãe…

– VÁ, AGORA!

E então Esmeralda correu, como nunca tinha feito antes em sua vida. Corria e chorava, não sabia se de medo, tristeza, ou desespero, mas parecia ser tudo ao mesmo tempo. Ela esperava que sua mãe estivesse perto, que fugisse junto com ela, era tudo o que tinha, sua vida sempre fora sua mãe e aquele lugar perdido no meio do nada, como poderia enfrentar o mundo sem sua única companheira?

Ela diminuiu os passos por um instante e olhou para trás, e a viu… Sua mãe segurava uma espada longa, e estava atacando os guardas, até que um dos guardas a atingiu. Enquanto estava no chão, a espada do guarda desceu, e a cabeça da guerreira rolou… Aquela pequena garota, que mal começara a viver, que nunca tinha feito nada errado àquelas pessoas, que só queria sua paz, via sua mãe morrer, e não pode fazer nada para impedir.

Esmeralda ficou paralisada e perplexa por um tempo, olhando toda aquela cena de longe, como se fosse um pesadelo… “Não pode ser real, não fizemos nada a essas pessoas, por que iriam querer nos prejudicar, isso deve ser um pesadelo… Eu preciso acordar”. Os mesmos guardas que tiraram dela tudo o que tinha, a viram de longe, então Esmeralda lembrou da promessa que fez a mãe, e continuou a correr. Ela correu de tudo, não fazia ideia para onde ia, ela só queria fugir.

Correu sem rumo por horas, e quando já pensara em desistir, ela viu uma tempestade de areia se formando. Não seria a primeira vez que enfrentaria algo do tipo, e seria uma boa forma de despistar os guardas. Então ela continuou, e a tempestade os atingiu de forma rápida e intensa.

Ela acordou e estava coberta de areia. Como ela conseguira se proteger com sua capa, ela não ficou soterrada, e assim conseguiu sair com certa facilidade. Ela olhava ao seu redor, e viu que os guardas não estavam mais lá, e que provavelmente tinham corrido da tempestade e desistiram de sua busca. E então, começou sua jornada. Porém, o que ela buscaria? Para onde iria? O que faria da sua vida dali pra frente? “Não era um pesadelo afinal, é real. Estou completamente só no mundo”. Lembrou-se da sua mãe, e da paz que tinha com ela naquele pedacinho de nada, era feliz ali, longe de qualquer mal do mundo… Ela caiu de joelhos na areia e chorou, gritou, questionou aos deuses o por que daquilo, nunca fizeram nada de grave aos outros, só queriam ser deixadas em paz “Por que?…”. Ao olhar para a areia, depois de tanto tempo se questionando e se martirizando, ela percebeu que só tinha uma coisa para fazer: buscar respostas, e, e além disso… Buscar vingança.

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Conto

Liberdade

Era uma vez, uma princesa que vivia numa torre em um castelo distante, hostil e perigoso. Ela sempre viveu neste lugar, apesar de nunca ter descoberto o porquê desse seu castigo. Pensava que se estava ali, devia ter algum motivo, ela sentia que merecia. Então sonhava com o dia em que alguém a salvaria de seu infortúnio, que uma pessoa se importasse com suas condições se sentiria fadado a tirá-la daquela prisão.

Passaram-se anos, e mais anos, e continuava solitária. Aquela pequena luz de esperança se apagava cada vez mais, não tinha razões para mantê-la. Até que um dia, ela deixou de existir, e a princesa cedeu à sua condição. Os sonhos morreram, e um pouco dela também, pois toda a inocência e ingenuidade a deixaram. Desde então, ela pensou que não deveria mais permanecer naquele mundo.

Ela pensou em diversas possibilidades para poder tirar sua própria vida, mas mesmo se sentindo triste e solitária, ela ao mesmo tempo via que aquilo não era certo. “Mas se isso for exatamente o que eles querem que eu faça?”, pensou. Começou a perceber que várias coisas que possuía em seu quarto eram possíveis instrumentos para que ela fizesse exatamente isso: provocar a própria morte. Então, depois de muita reflexão, decidiu que não faria mais isto, mas que faria melhor, ela mesma se salvaria.

Um dia, ela esperou pacientemente que o guarda viesse entregar sua refeição. Já estava com uma possível arma consigo, um prendedor de cabelo que possuía uma ponta afiada. No momento em que ele entrou no quarto, ela já estava atrás da porta. Deu uma estocada em seu pescoço e saiu correndo, ela nunca havia corrido tanto em sua vida. Desceu a escada por algum tempo, até que percebeu que guardas estavam a caminho. Logo se escondeu atrás de uma pilastra, e eles passaram sem vê-la. Saiu e começou a caminhar devagar e cautelosa, como um gato se preparando para capturar sua presa. Até que, enfim, viu a porta que levava para fora da torre.

Correu até a porta, e saiu em disparada pelo pátio. Percebeu que tinham pouquíssimas pessoas, provavelmente somente os guardas que a vigiavam na torre. Logo passou pelo pátio, e corria tão depressa como nunca, a cada momento sentindo mais o vento, a luz do sol, tudo o que sempre quis. Quando chegou ao portão, viu que este estava entreaberto, e tinha somente um guarda à vista. Com muito cuidado ultrapassou o portão, e teve o melhor sentimento de sua vida.

Ela correu pelo descampado, descalça e maltrapilha, mas não se importou. Ela sorria ao vento, seus cabelos escuros e longos voavam soltos, suas lágrimas caíam como cascatas. Ela estava no auge da sua felicidade, ela poderia explorar aquele mundo tão sonhado… Então sentiu um impacto, e começou a sentir muita dor em sua coxa… E era uma flecha.

A princesa injustiçada, incrédula, olhou para trás, e logo viu o mesmo guarda do portão, com um arco apontado para ela, a origem daquele ataque. Tentou correr, mas a perna doía, e sangrava muito. Daí ela soube então, ela ia morrer. Mas, mesmo diante da sua morte, aquela mulher não parava de sorrir. Arrastou sua perna até aonde pode, porém o corpo cedeu, e então, finalmente, caiu. Ela então começou a sorrir insanamente, pois ela sabia que tinha conseguido, quem quer que a tenha prendido, não a conseguiu segurar. Viu os guardas indo em sua direção, mas ela sabia, ela não suportaria, e disse por fim: “Mesmo na minha morte, eu sou uma mulher livre.”. Fechou os olhos, e sentiu aquilo que ela tanto desejara, liberdade.

*

– Você a matou? – disse um guarda ao arqueiro.

– Não era a minha intenção, ela ia em direção à floresta. Era preciso uma decisão rápida. – respondeu o arqueiro.

– Bem, mas acredito que essa a intenção do rei.

– Por que acredita nisso?

– Não poderia te contar isto, mas acho que agora não tem tanta importância assim. Esta garota era bastarda do rei, e ele a trancou aqui porque poderia ferir a imagem dele ter algo assim ligado à ele.

– É uma pena, era tão bonita. Mas vamos, temos que voltar e dizer o que aconteceu.

– Vamos.

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Conto

O Lobo, o Cão e a Raposa (Parte 1)

I. O Lobo

Era um ser peculiar. Nasceu numa matilha, como todos os integrantes, porém, era diferente de qualquer outro. A cor de seu pelo era amarronzada, forte e quente; enquanto seus irmãos e irmãs tinham suas pelagens cinzas, pretas ou brancas. Mesmo assim, sua mãe o amava, como todos os seus outros filhotes, e acreditava que sua cor era somente uma causalidade, ele seria aceito e respeitado pelos outros lobos. Entretanto, o tempo mostraria a todos que não era só esta sua distinção…

Este ser desde pequeno sempre fora aventureiro e questionador, o que não deixava os lobos mais velhos confortáveis, mas nunca demonstravam qualquer comportamento ameaçador. Fazia muitas perguntas a sua mãe, que já idosa, não conseguia responder a todas, mas sempre admirava seu pequeno lupino “meu pequeno pedaço de outono”, já dizia ela. Era o mais amado dos irmãos, por parte da mãe, o que os fazia sentir inveja deste, “ele é uma aberração, não é como nós”.

Nunca soube muito sobre seu pai, diziam a ele que fora um alfa que comandou a matilha por muito tempo, porém, morreu devido a uma nevasca que os atingiu, antes mesmo dele nascer. Sempre vira uma sombra dele em seus sonhos, mas de forma inatingível, distante, mas mesmo assim admirável, sentia orgulho de ser seu filho. Sua mãe costumava lhe dizer que tinha os olhos do pai, e talvez um pouco da perseverança que tinha quando jovem.

O tempo foi passando, e o lobo da pelagem amarronzada e seus irmãos já não eram mais tão pequeninos quanto antes. Agora precisavam adquirir seus talentos como lobos, e possíveis alfas, precisavam ser líderes, ser respeitados, e caçar. O fato de caçar nunca amedrontou o lobo, mas o fato de matar um outro ser para sobreviver lhe causava um certo nervosismo; porém, seguindo seus instintos, foi caçar com seus irmãos e alguns outros lobos mais velhos.

O lobo frequentemente volta àquele dia em suas memórias, pois sempre fica pensando se tomou a pior ou a melhor decisão de sua vida. Era um dia um pouco ensolarado, mas particularmente bonito. Dez lobos foram caçar juntos, alguns foram para vigiar os lobos mais novos, e principalmente aquele lobo estranho. Todos precisavam de uma confirmação de que era como os outros, se não era uma ameaça à ordem. Inicialmente não houve problemas, viram ao longe uma pequena raposa, e a seguiram. Eram tempos difíceis, com muita neve, sempre precisavam dividir a comida, mas então o alfa desafiou “Quem de vocês a trouxer primeiro, não precisará dividir”. Os irmãos ficaram empolgados, e cada um começou a elaborar a própria armadilha para ela, inclusive o lobo marrom. Porém, em um certo momento, ele viu até onde aquela pequena raposa ia, era uma fêmea, e estava voltando à sua toca pois tinha filhotes, e além disso parecia ferida. Ele ficou perplexo “Como posso matar uma criatura que mal pode se defender?”; neste momento, um de seus irmãos vinha se aproximando, e ele ia atacar aquela criatura. “O que posso fazer?”, se questionou, e no momento em que ele ia avançar, o lobo da pelagem cor de outono o impediu, ficando de frente a ele. “O que você pensa que está fazendo?”, seu irmão questionou, “Não permitirei que nenhum de vocês chegue perto desta raposa, ela tem filhotes e está machucada, não tem como se defender.”. Então todos os outros apareceram, e imediatamente o olharam de forma julgadora, “Saia da minha frente, se você quer ser estranho não é meu problema, apesar de sempre ter sido. Eu vou pegar esta raposa, mesmo que tenha que te matar para isso”, o irmão afirmou, “Não sairei de onde estou”, disse o lobo. Foi uma questão de segundos, o lobo cinzento foi para cima e o marrom revidou, os dois brigaram de forma intensa, quase até a morte; entretanto, o alfa os separou e acabaram por desistir daquela presa.

Depois deste acontecimento, os irmãos voltaram e acabaram por não levar nenhuma caça para a matilha. O lobo amarronzado percebeu nos olhares de todos a forma como o julgaram, e assim percebeu que aquilo sempre fora constante em sua vida. Todos aparentavam receio por sua pelagem e por tudo o que demonstrava de diferente, ninguém o defendeu, e a única pessoa que o aceitava por ser daquela forma era sua idosa mãe, e era no que ele resistia. Porém, quando ele voltou para casa, viu aquele mesmo olhar dos outros no olhar de sua mãe “Você quase matou seu irmão, ele não merecia isso. Eu acreditava que você realmente poderia ser como seu pai, mas parece que sempre me enganei…”. Aquilo foi como a morte para aquele lobo, que seu único pecado foi defender o que acreditava, nunca quis ferir seu irmão, magoar sua mãe, ou ofender a memória de seu pai. Ele queria somente uma família que o aceitasse.

Daquele momento em diante, ele sabia que estava sozinho. Então fez a única coisa que poderia ter feito: deixou sua matilha.

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Conto

Dualidade

Duas forças habitam este corpo, alguns diriam que se constituem de algo como “bom” e “mau”, mas na verdade é um lado construtivo, que o impulsiona a crescer, e um que está ali para que se gere assim um desequilíbrio. Ao mesmo tempo em que o lado destrutivo é odiado, é aquele velho mau necessário.

Entretanto, tais forças nunca souberam trabalhar em conjunto, o que acabava por prejudicar aquele corpo, pois, sempre havia uma disputa entre os dois pela dominação daquele receptáculo. A entidade construtiva sempre procurava manter o controle por mais tempo, porque, na verdade, ela sempre teve medo de seu reverso; nunca pode descobrir do que seria capaz… Porém, algumas vezes, ela se descuidava e o lado destrutivo conseguia o poder. Quando isso acontecia, era fatal, o corpo sofria. “Não fomos criados para o sofrimento”, o lado construtivo diria, “somos parte de um todo, você precisa de mim tanto quanto eu de você”, ao se referir ao outro lado. Mas ele nunca a escutava, e continuava a prejudicá-los.

Um dia, a força construtiva chegou a uma conclusão, um tanto quando inusitada, “Já cheguei a escutar algo que meu reverso tentou me dizer?”. Então ela percebeu, ela sempre o rejeitava, acreditava que era prejudicial, que era mau. Ela se surpreendeu com as próprias conclusões “Fui um ser pior que ele, eu o julguei”.

Num momento de disputa entre as forças, a construtiva tentou uma abordagem diferente. Chegou até seu reverso, e disse “Me diga, o que te motiva a ter tanta raiva e mágoa em você?”. Primeiramente, o destrutivo achou estranho, ela nunca tinha se referido a ele com tanta graça e delicadeza… Depois, respondeu “E por que isso importa agora?”. Os dois se encararam por um tempo, mas, pela primeira vez, não estavam tão agressivos, pareciam até… Amigos. Então ela se aproximou, tocou seu rosto e falou “Sempre importou, porém, eu fui uma tola em não ver dessa forma. Me perdoe por isso.”. Uma lágrima teimosa caiu do olho do destrutivo, “O mundo o qual o corpo pertence nunca nos acolheu totalmente, enquanto eu sofria por isso, você ignorava. Nunca pude contar com você para me ouvir, logo guardei isso comigo por todo esse tempo. O que me tornei foi somente uma consequência.”. A outra força se chocou com aquilo, e viu as várias vezes tinha tomado aquela mesma decisão que o destrutivo se referia: ignorar. Aquilo nunca poderia resolver a situação, ignorar só adia o inevitável; o sofrimento chegaria a todos, por que evitar ao invés de encarar? Por que não ver as coisas como elas realmente são?

Desde então, os dois, com suas respectivas crises existenciais, buscam viver em harmonia. O lado construtivo passou a entender que o seu reverso era necessário para entender o equilíbrio, para permitir que aquele corpo tivesse o direito do sofrimento, e que, assim, pudesse ajudá-lo a crescer a partir das decepções e desilusões. Da mesma forma que a força destrutiva está lá para mostrar a todos como as pessoas podem ser cruéis e indiferentes, a construtiva também revelaria o quanto conseguem ser solidárias, amigáveis, gentis.

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Crônica

Esquecível

Você tem amigos,

Então, por um acaso do destino, se distancia deles

Pode pensar que “Foi só uma ocasionalidade”,

E volta

Você é estranho naquele lugar.

Será que foi você que mudou, ou seus amigos que mudaram?

Talvez todos tenham mudado.

Então você fica nostálgico, pensando no quanto era bom antes…

Mas o fato é que, as pessoas sempre estão em constantes mutações.

Logo, todos estão diferentes, e você está sozinho.

Mas será isso algo tão ruim assim?

A solidão te traz o sentimento de esquecimento?

Saiba que, se sente isso, não é o mundo que te esqueceu,

Talvez você só tenha esquecido a si mesmo.

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