Conto

Dualidade

Duas forças habitam este corpo, alguns diriam que se constituem de algo como “bom” e “mau”, mas na verdade é um lado construtivo, que o impulsiona a crescer, e um que está ali para que se gere assim um desequilíbrio. Ao mesmo tempo em que o lado destrutivo é odiado, é aquele velho mau necessário.

Entretanto, tais forças nunca souberam trabalhar em conjunto, o que acabava por prejudicar aquele corpo, pois, sempre havia uma disputa entre os dois pela dominação daquele receptáculo. A entidade construtiva sempre procurava manter o controle por mais tempo, porque, na verdade, ela sempre teve medo de seu reverso; nunca pode descobrir do que seria capaz… Porém, algumas vezes, ela se descuidava e o lado destrutivo conseguia o poder. Quando isso acontecia, era fatal, o corpo sofria. “Não fomos criados para o sofrimento”, o lado construtivo diria, “somos parte de um todo, você precisa de mim tanto quanto eu de você”, ao se referir ao outro lado. Mas ele nunca a escutava, e continuava a prejudicá-los.

Um dia, a força construtiva chegou a uma conclusão, um tanto quando inusitada, “Já cheguei a escutar algo que meu reverso tentou me dizer?”. Então ela percebeu, ela sempre o rejeitava, acreditava que era prejudicial, que era mau. Ela se surpreendeu com as próprias conclusões “Fui um ser pior que ele, eu o julguei”.

Num momento de disputa entre as forças, a construtiva tentou uma abordagem diferente. Chegou até seu reverso, e disse “Me diga, o que te motiva a ter tanta raiva e mágoa em você?”. Primeiramente, o destrutivo achou estranho, ela nunca tinha se referido a ele com tanta graça e delicadeza… Depois, respondeu “E por que isso importa agora?”. Os dois se encararam por um tempo, mas, pela primeira vez, não estavam tão agressivos, pareciam até… Amigos. Então ela se aproximou, tocou seu rosto e falou “Sempre importou, porém, eu fui uma tola em não ver dessa forma. Me perdoe por isso.”. Uma lágrima teimosa caiu do olho do destrutivo, “O mundo o qual o corpo pertence nunca nos acolheu totalmente, enquanto eu sofria por isso, você ignorava. Nunca pude contar com você para me ouvir, logo guardei isso comigo por todo esse tempo. O que me tornei foi somente uma consequência.”. A outra força se chocou com aquilo, e viu as várias vezes tinha tomado aquela mesma decisão que o destrutivo se referia: ignorar. Aquilo nunca poderia resolver a situação, ignorar só adia o inevitável; o sofrimento chegaria a todos, por que evitar ao invés de encarar? Por que não ver as coisas como elas realmente são?

Desde então, os dois, com suas respectivas crises existenciais, buscam viver em harmonia. O lado construtivo passou a entender que o seu reverso era necessário para entender o equilíbrio, para permitir que aquele corpo tivesse o direito do sofrimento, e que, assim, pudesse ajudá-lo a crescer a partir das decepções e desilusões. Da mesma forma que a força destrutiva está lá para mostrar a todos como as pessoas podem ser cruéis e indiferentes, a construtiva também revelaria o quanto conseguem ser solidárias, amigáveis, gentis.

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