Conto

O Lobo, o Cão e a Raposa (Parte 1)

I. O Lobo

Era um ser peculiar. Nasceu numa matilha, como todos os integrantes, porém, era diferente de qualquer outro. A cor de seu pelo era amarronzada, forte e quente; enquanto seus irmãos e irmãs tinham suas pelagens cinzas, pretas ou brancas. Mesmo assim, sua mãe o amava, como todos os seus outros filhotes, e acreditava que sua cor era somente uma causalidade, ele seria aceito e respeitado pelos outros lobos. Entretanto, o tempo mostraria a todos que não era só esta sua distinção…

Este ser desde pequeno sempre fora aventureiro e questionador, o que não deixava os lobos mais velhos confortáveis, mas nunca demonstravam qualquer comportamento ameaçador. Fazia muitas perguntas a sua mãe, que já idosa, não conseguia responder a todas, mas sempre admirava seu pequeno lupino “meu pequeno pedaço de outono”, já dizia ela. Era o mais amado dos irmãos, por parte da mãe, o que os fazia sentir inveja deste, “ele é uma aberração, não é como nós”.

Nunca soube muito sobre seu pai, diziam a ele que fora um alfa que comandou a matilha por muito tempo, porém, morreu devido a uma nevasca que os atingiu, antes mesmo dele nascer. Sempre vira uma sombra dele em seus sonhos, mas de forma inatingível, distante, mas mesmo assim admirável, sentia orgulho de ser seu filho. Sua mãe costumava lhe dizer que tinha os olhos do pai, e talvez um pouco da perseverança que tinha quando jovem.

O tempo foi passando, e o lobo da pelagem amarronzada e seus irmãos já não eram mais tão pequeninos quanto antes. Agora precisavam adquirir seus talentos como lobos, e possíveis alfas, precisavam ser líderes, ser respeitados, e caçar. O fato de caçar nunca amedrontou o lobo, mas o fato de matar um outro ser para sobreviver lhe causava um certo nervosismo; porém, seguindo seus instintos, foi caçar com seus irmãos e alguns outros lobos mais velhos.

O lobo frequentemente volta àquele dia em suas memórias, pois sempre fica pensando se tomou a pior ou a melhor decisão de sua vida. Era um dia um pouco ensolarado, mas particularmente bonito. Dez lobos foram caçar juntos, alguns foram para vigiar os lobos mais novos, e principalmente aquele lobo estranho. Todos precisavam de uma confirmação de que era como os outros, se não era uma ameaça à ordem. Inicialmente não houve problemas, viram ao longe uma pequena raposa, e a seguiram. Eram tempos difíceis, com muita neve, sempre precisavam dividir a comida, mas então o alfa desafiou “Quem de vocês a trouxer primeiro, não precisará dividir”. Os irmãos ficaram empolgados, e cada um começou a elaborar a própria armadilha para ela, inclusive o lobo marrom. Porém, em um certo momento, ele viu até onde aquela pequena raposa ia, era uma fêmea, e estava voltando à sua toca pois tinha filhotes, e além disso parecia ferida. Ele ficou perplexo “Como posso matar uma criatura que mal pode se defender?”; neste momento, um de seus irmãos vinha se aproximando, e ele ia atacar aquela criatura. “O que posso fazer?”, se questionou, e no momento em que ele ia avançar, o lobo da pelagem cor de outono o impediu, ficando de frente a ele. “O que você pensa que está fazendo?”, seu irmão questionou, “Não permitirei que nenhum de vocês chegue perto desta raposa, ela tem filhotes e está machucada, não tem como se defender.”. Então todos os outros apareceram, e imediatamente o olharam de forma julgadora, “Saia da minha frente, se você quer ser estranho não é meu problema, apesar de sempre ter sido. Eu vou pegar esta raposa, mesmo que tenha que te matar para isso”, o irmão afirmou, “Não sairei de onde estou”, disse o lobo. Foi uma questão de segundos, o lobo cinzento foi para cima e o marrom revidou, os dois brigaram de forma intensa, quase até a morte; entretanto, o alfa os separou e acabaram por desistir daquela presa.

Depois deste acontecimento, os irmãos voltaram e acabaram por não levar nenhuma caça para a matilha. O lobo amarronzado percebeu nos olhares de todos a forma como o julgaram, e assim percebeu que aquilo sempre fora constante em sua vida. Todos aparentavam receio por sua pelagem e por tudo o que demonstrava de diferente, ninguém o defendeu, e a única pessoa que o aceitava por ser daquela forma era sua idosa mãe, e era no que ele resistia. Porém, quando ele voltou para casa, viu aquele mesmo olhar dos outros no olhar de sua mãe “Você quase matou seu irmão, ele não merecia isso. Eu acreditava que você realmente poderia ser como seu pai, mas parece que sempre me enganei…”. Aquilo foi como a morte para aquele lobo, que seu único pecado foi defender o que acreditava, nunca quis ferir seu irmão, magoar sua mãe, ou ofender a memória de seu pai. Ele queria somente uma família que o aceitasse.

Daquele momento em diante, ele sabia que estava sozinho. Então fez a única coisa que poderia ter feito: deixou sua matilha.

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