Conto

Liberdade

Era uma vez, uma princesa que vivia numa torre em um castelo distante, hostil e perigoso. Ela sempre viveu neste lugar, apesar de nunca ter descoberto o porquê desse seu castigo. Pensava que se estava ali, devia ter algum motivo, ela sentia que merecia. Então sonhava com o dia em que alguém a salvaria de seu infortúnio, que uma pessoa se importasse com suas condições se sentiria fadado a tirá-la daquela prisão.

Passaram-se anos, e mais anos, e continuava solitária. Aquela pequena luz de esperança se apagava cada vez mais, não tinha razões para mantê-la. Até que um dia, ela deixou de existir, e a princesa cedeu à sua condição. Os sonhos morreram, e um pouco dela também, pois toda a inocência e ingenuidade a deixaram. Desde então, ela pensou que não deveria mais permanecer naquele mundo.

Ela pensou em diversas possibilidades para poder tirar sua própria vida, mas mesmo se sentindo triste e solitária, ela ao mesmo tempo via que aquilo não era certo. “Mas se isso for exatamente o que eles querem que eu faça?”, pensou. Começou a perceber que várias coisas que possuía em seu quarto eram possíveis instrumentos para que ela fizesse exatamente isso: provocar a própria morte. Então, depois de muita reflexão, decidiu que não faria mais isto, mas que faria melhor, ela mesma se salvaria.

Um dia, ela esperou pacientemente que o guarda viesse entregar sua refeição. Já estava com uma possível arma consigo, um prendedor de cabelo que possuía uma ponta afiada. No momento em que ele entrou no quarto, ela já estava atrás da porta. Deu uma estocada em seu pescoço e saiu correndo, ela nunca havia corrido tanto em sua vida. Desceu a escada por algum tempo, até que percebeu que guardas estavam a caminho. Logo se escondeu atrás de uma pilastra, e eles passaram sem vê-la. Saiu e começou a caminhar devagar e cautelosa, como um gato se preparando para capturar sua presa. Até que, enfim, viu a porta que levava para fora da torre.

Correu até a porta, e saiu em disparada pelo pátio. Percebeu que tinham pouquíssimas pessoas, provavelmente somente os guardas que a vigiavam na torre. Logo passou pelo pátio, e corria tão depressa como nunca, a cada momento sentindo mais o vento, a luz do sol, tudo o que sempre quis. Quando chegou ao portão, viu que este estava entreaberto, e tinha somente um guarda à vista. Com muito cuidado ultrapassou o portão, e teve o melhor sentimento de sua vida.

Ela correu pelo descampado, descalça e maltrapilha, mas não se importou. Ela sorria ao vento, seus cabelos escuros e longos voavam soltos, suas lágrimas caíam como cascatas. Ela estava no auge da sua felicidade, ela poderia explorar aquele mundo tão sonhado… Então sentiu um impacto, e começou a sentir muita dor em sua coxa… E era uma flecha.

A princesa injustiçada, incrédula, olhou para trás, e logo viu o mesmo guarda do portão, com um arco apontado para ela, a origem daquele ataque. Tentou correr, mas a perna doía, e sangrava muito. Daí ela soube então, ela ia morrer. Mas, mesmo diante da sua morte, aquela mulher não parava de sorrir. Arrastou sua perna até aonde pode, porém o corpo cedeu, e então, finalmente, caiu. Ela então começou a sorrir insanamente, pois ela sabia que tinha conseguido, quem quer que a tenha prendido, não a conseguiu segurar. Viu os guardas indo em sua direção, mas ela sabia, ela não suportaria, e disse por fim: “Mesmo na minha morte, eu sou uma mulher livre.”. Fechou os olhos, e sentiu aquilo que ela tanto desejara, liberdade.

*

– Você a matou? – disse um guarda ao arqueiro.

– Não era a minha intenção, ela ia em direção à floresta. Era preciso uma decisão rápida. – respondeu o arqueiro.

– Bem, mas acredito que essa a intenção do rei.

– Por que acredita nisso?

– Não poderia te contar isto, mas acho que agora não tem tanta importância assim. Esta garota era bastarda do rei, e ele a trancou aqui porque poderia ferir a imagem dele ter algo assim ligado à ele.

– É uma pena, era tão bonita. Mas vamos, temos que voltar e dizer o que aconteceu.

– Vamos.

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